Dissecção da artéria carótida

Por Maramelia Miranda ** . Atualizado em Novembro de 2018.

Tags: Dissecção de carótida; dissecção carotídea; dissecção arterial cervical; dissecções das artérias carótidas; pseudoaneurisma carotídeo

O que é?

A dissecção da artéria carótida é uma das causas frequentes de Acidente Vascular Cerebral Isquêmico (AVCi) em pacientes jovens.

Ocorre quando as camadas internas da artéria, vaso do pescoço que ascende até o crânio, apresentam alguma lesão, e assim ocorre uma laceração interna, o desvio anormal do sangue internamente neste vaso, e sua circulação para o espaço “errado” dentro do vaso. É um pouco complexo explicar textualmente, mas o fato é que o acúmulo do sangue na luz “falsa” da artéria pode fechar este vaso, ou provocar a formação de coágulos neste local, ocasionando os sintomas característicos da dissecção da carótida – o AVC – Acidente Vascular Cerebral.

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Quais as causas da dissecção da artéria carótida?

A dissecção da artéria carótida pode ocorrer de forma espontânea, ou seja, sem nenhuma causa aparente. Entretanto, a causa mais comum de dissecção, seja da artéria carótida quanto da vertebral, é algum traumatismo local do pescoço, desde traumas mais sérios como acidentes automobilísticos, traumas diretos na região do pescoço, até pequenas pancadas, como pode ocorrer durante uma atividade física ou esportiva qualquer – traumas na região da cabeça ou pescoço, acidentes domésticos. Existem várias descrições de casos de dissecção da carótida em atidades como massagens do pescoço, shiatsu ou similares, fisioterapias intensas no pescoço, e até mesmo em yoga ou, por exemplo, apenas da pessoa fazer aquele típico balançar da cabeça em shows de rock!!!

Causas menos comuns de dissecção são relacionadas a alguma doença do colágeno previamente conhecida pelo paciente, como doenças reumatológicas diversas – lupus, fibrodisplasia, Síndrome de Marfan ou alguma vasculite.

Quais os sintomas da dissecção da carótida???

Um dos principais sintomas e primeiros sintomas: dor.

Quase sempre a dissecção da artéria cervical, seja ela carótida ou vertebral, provoca dor, no local e próximo ao ponto da artéria onde dissecou. Ou seja, no caso da carótida, a dor costuma ser na lateral no pescoço, ou no lado esquerdo ou direito, no lado da cabeça onde a carótida dissecou, e pode irradiar-se para a metade da cabeça, ou para a cabeça toda – simulando até mesmo uma simples dor de cabeça ou enxaqueca.

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Porém, infelizmente o principal sintoma da dissecção carotídea é o paciente ter um AVC repentinamente: ter sintomas de AVC decorrente do acometimento da carótida, como uma fraqueza súbita no braço, na perna, uma alteração ou dificuldade da fala repentina, ou uma paralisia do lado inteiro do corpo, ou até mesmo ficar paralisado e entrar em coma.

Pode acontecer de tudo. Lembrando que sempre o AVC ocorre subitamente, de um minuto para o outro. Nunca lentamente, ou insidiosamente, progressivamente. Depois do AVC ocorrer, na investigação, se descobre que foi por causa da dissecção.

É importante lembrar que alguns pacientes podem apresentar a dissecção da artéria carótida apenas com o sintoma de dor na lateral do pescoço e da cabeça, dor no ouvido, geralmente dor do tipo inédita, diferente, estranha do habitual que o indivíduo tem, sem haver nenhuma isquemia. Casos mais raros podem ter sintomas muito estranhos, como dor no olho do lado dissecado, mudança do tamanho da íris ipsilateral e queda da pálpebra do lado afetado (Síndrome de Horner), paralisias de nervos cranianos da base do crânio e cervicais, como o nervo facial, hipoglosso, ou nervo vago e acessório. Estes casos são mais difíceis de serem reconhecidos, pela sua raridade.

Como fazer o diagnóstico de dissecção carotídea?

Sempre em casos de suspeita clínica dos sintomas característicos, e em casos de AVC em jovens, ou na ocorrência de sintomas de dor diferente, inédita, estranha, simulando dissecção carotídea, é imperativo fazer alguns exames, a saber:

Ressonância magnética da cabeça com avaliação por angioressonância magnética das artérias cervicais e da cabeça – Para detectar rapidamente o local da dissecção, visualizar o trombo / coágulo dentro da artéria acometida, e detectar se houve ou não a evolução para um AVC isquêmico.

Tomografia da cabeça, exame que costuma ser feito no pronto-socorro, é um exame que se apresenta normal na grande maioria dos casos de dissecção carotídea. Durante a tomografia pode ser acrescentado o exame de angiotomografia, que consegue identificar com precisão se há dissecção.

Arteriografia cerebral – Quando não se dispõe da angiorressonância magnética das artérias, outra opção é realizar uma arteriografia, para detectar o local da dissecção pela angiografia digital. A desvantagem é ser este exame mais invasivo, feito com introdução de cateteres na artéria da perna.

– Exames de sangue diversos, que são realizados dependendo do exame clínico do paciente, para descobrir alguma outra possível causa de AVC em jovem, como ecocardiograma, exames de sangue, pesquisa de doenças reumatológicas, etc.

Qual o tratamento da dissecção da artéria carótida?

Pra começar, todo caso suspeito deve ser internado no hospital para observação, investigação detalhada e vigilância neurológica.

Além dos exames diagnósticos acima descritos, o tratamento mais difundido e efetivo, embora não validado em estudos clínicos prospectivos, tem sido o uso de anticoagulação, inicialmente com heparina endovenosa em dose plena, e posteriormente a anticoagulação oral por cerca de seis meses. Casos mais leves podem ser tratados com aspirina ou clopidogrel apenas.

Em 2015, foi publicado um estudo científico, chamado CADDISS, que mostrou efeitos semelhantes entre anticoagulantes e antiagregantes no tratamento de dissecções cervicais (de carótidas ou vertebrais). Assim, a escolha entre um ou outro agente deve ser individualizada.

Alguns casos mais raros necessitam de algum tipo de intervenção do tipo endovascular (por cateterismo), sobretudo quando há obstruções graves da circulação e formação dos pseudoaneurismas. A depender da localização e possíveis complicações das dissecções, estes casos particularmente devem ser manejados por neurologistas com expertise / experiência em Neurologia Vascular, em conjunto com uma equipe de neurorradiologistas intervencionistas familiarizados com esta doença.

O prognóstico dos pacientes com dissecção da artéria carotídea depende do tipo de dissecção e se houve ou não AVC.

Nos casos com AVC maiores, depende do local da lesão. Nos casos sem AVC, em geral é bom, desde que sejam feitas as condutas corretas, com o reconhecimento precoce do problema e o correto manejo com anticoagulantes e/ou antitrombóticos, ou correção das complicações com a terapia endovascular.

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** Dra. Maramélia Miranda é neurologista clínica. Fez residência e pós-graduação em Neurologia pela UNIFESP-EPM, e é especializada em AVC, neurointensivismo e Doppler Transcraniano, editora do blog iNeuro.com.br.

101 thoughts on “Dissecção da artéria carótida”

  1. Ola sinto dores do lado direito há dois dias que fica nuca e pescoço, perto da orelha acho que é na veia ou
    muscular,seii lá,, de leve queimando .será que é água entrou no ouvido pq faço natação! Tenho enjôo e as vezes doe de cabeça. É grave?

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