Demências

tags: Alzheimer, demência senil, tratamento do Alzheimer, sintomas, tipos de demências, causas, prevenção

** Por Maramélia Miranda

O que é demência?

Pra começo de conversa, o termo “demência senil”, muito usado por aí, não é o mais correto.

Quando nós, neurologistas, ouvimos ou lemos isso em algum lugar, eu, particularmente, sinto até uma dor no peito de tão feio que o termo soa aos meus ouvidinhos…

Demência, genericamente, não é uma doença, mas um conjunto de sintomas.

Estes sintomas necessariamente devem afetar pelo menos duas esferas das funções superiores que só nós, seres humanos, temos.

Na maioria dos casos, a pessoa é diagnosticada com demência quando ela tem pelo menos dois sintomas, a maioria deles sendo pelo menos um deles com problemas de memória recente, mas podendo pegar também outras esferas, como orientação, cálculo, linguagem, habilidades sociais, habilidade para se vestir, resolver problemas do dia a dia, mexer com dinheiro, não conseguir se cuidar, dirigir, juízo e crítica, entre outros.

É meio complicado de entender, mas é mais ou menos assim: Alteração de memória pura não é demência. Mas se a pessoa tiver a alteração de memória e mais uma alteração, seja de comportamento (apatia, agressividade), confusão mental frequente, problema para falar de surgimento progressivo, por exemplo, isso já é uma demêmcia.

Sintomas

Podem variar bastante, mas uma coisa é certa: Quase sempre os sintomas aparecem de leve, e progridem lentamente, isso nas demências ditas degenerativas, as mais frequentes.

Os sintomas mais frequentes estão descritos a seguir, dependendo da “esfera” acometida.

Alterações de memória, como:

  • Dificuldade / perda de memória, mais comumente a memória recente
  • Dificuldade em realizar atividades mais complexas, em planejar, se organizar
  • Dificuldade de coordenação
  • Dificuldade em se localizar, a pessoa pode se perder no seu bairro, sua cidade
  • Dificuldade em reconhecer pessoas, familiares, ou achar nomes das coisas

Alterações de comportamento ou psicológicas, como:

  • Mudança de personalidade
  • Apatia, incapacidade de reagir às situações
  • Sintomas de confusão mental, paranóia, alucinações, até mesmo agressividade

+++ Estágios da Doença de Alzheimer

+++ Alzheimer: O que fazer e o que não fazer!!!

Fatores de risco. Como prevenir????

Sempre todo mundo quer saber: o que posso fazer para me prevenir? Existem fatores de risco que não podemos mudar, como a genética ou idade mais e mais avançada; e existem aquelas coisas onde podemos atuar, intervir.

Fatores de risco modificáveis – Coisas que podemos fazer, para tentar prevenir demências:

  • Uso de álcool em excesso, drogas, e tabagismo. Evitar, óbvio.
  • Aterosclerose. Pessoas com carga de doença aterosclerótica podem ter micro-pequenos derrames ou isquemias, que em anos e anos de evolução, podem causar demência vascular.
  • Pressão alta. Tratar adequadamente níveis de pressão mais alta comprovadamente previnem a demência, sobretudo nos tipos vascular e sintomas do Alzheimer.
  • Colesterol e diabetes. Tratar adequadamente problemas de colesterol e triglicérides, e o diabetes, comprovadamente previnem a demência, sobretudo no tipo vascular.
  • Depressão. Ter doenças psiquiátricas, e não tratar depressão, está relacionada a maior frequência de demências.
  • Atividade física, social e intelectual. Sabe-se que manter-se ativo, trabalhando, fazer leituras, sair, conversar, socializar, praticar atividade física, são coisas que comprovadamente beneficiam o cérebro, e podem ajudar a prevenir o surgimento de problemas de memória e demência.

Quando suspeitar?

Se houver algum sintoma dos acima, que você está percebendo em algum amigo ou familiar próximo, é prudente levar a pessoa para consultar-se com neurologista clínico. Lembrete, é raro a própria pessoa perceber a sua alteração. Na maioria das vezes, é a família, ou próximos, que percebem que a pessoa não está bem das ideias…

Dependendo da causa, alguns tipos de demência podem ser tratados e seus sintomas revertidos; a demência de causa vascular, por exemplo, pode ser estacionada, e conseguimos que ela não progrida, piore.

Em relação às demências degenerativas, como as secundárias ao Alzheimer, frontotemporal ou por corpos de Lewy, mesmo sabendo que não há até hoje um tratamento curativo, com o uso de medicamentos e orientações, podemos  melhorar muito a vida dos pacientes e seus cuidadores / familiares. Além disso, sabendo que estes tipos progridem inexoravelmente, é muito importante saber qual o tipo de demência da pessoa, para a família poder se planejar para o futuro.

Tipos de demência

A principal causa de demência atualmente é o tipo devido à Doença de Alzheimer. Esta é uma demência chamada degenerativa, pois aparece por causa da destruição das células do cérebro (deposição de amilóide), e vai piorando com o tempo. É um tipo progressivo.

Existem outros tipos, como a demência vascular, que é causada por doença cerebrovascular levando a múltiplos AVCs – Acidente Vascular Cerebral, e isso levando aos problemas cognitivos somados. E à demência.

Existe a demência mista, ou seja, duas ou mais causas de demência juntas levando aos sintomas. Neste caso, o mais frequente atualmente são os dois tipos principais de demência: a do tipo Alzheimer somada à vascular.

Demências progressivas. Aparecem lentamente e progridem, pois não há tratamento curativo para estes tipos, até os dias de hoje.

  • Demência por Doença de Alzheimer. É a causa mais comum de demência. Geralmente aparece em pessoas após os 60 anos. Casos em mais jovens associam-se a problemas genéticos. A causa já está bem conhecida, e decorre de deposição de uma proteína chamada beta-amilóide nos neurônios, que causam a disfunção destas células, e consequentemente os sintomas de demência. Não há tratamento curativo até hoje. Apenas condutas e remédios que minimizam e retardam o surgimento dos sintomas.
  • Demência por Doença de Lewy. Este tipo ocorre em cerca de 10% das demências. É mais raro. É progressivo, e costuma vir com sintomas de demência alternando com dias, períodos em que a pessoa fica mais lúcida. Muito frequentemente a pessoa tem sintomas de tremores e rigidez, semelhante ao Parkinson.
  • Demência Frontotemporal. Costuma aparecer em uma faixa de idade um pouco mais jovem do que nos casos de Alzheimer, entre 50 e 70 anos. Os sintomas predominantes são alterações de personalidade, comportamento e linguagem, exatamente as funções predominantes dos lobos frontal e temporal no cérebro.
  • Demência pela Doença de Parkinson. Uma parcela das pessoas que tem Parkinson podem desenvolver em fases mais avançadas, sintomas de demência, condição chamada de Demência relacionada à doença de Parkinson.

Demências potencialmente  tratáveis, ou que podem estacionar. São os tipos de demência onde você pode conseguir uma estabilização dos sintomas, e algumas vezes até mesmo a reversão e cura.

  • Demência vascular. O segundo tipo mais frequente de demência, que pode avançar e progredir se a pessoa tiper Alzheimer junto, ou pode estacionar se forem tratadas as causas dos AVCs, e a pessoa parar de ter AVC. Muito comumente, esta demência pode vir junto com o Alzheimer. A causa mais frequente deste tipo é ocorrer um AVC em uma área “nobre” do cérebro, como área da memória ou de função executiva superior; outra causa frequente são múltiplos AVCs na pessoa que não se cuida adequadamente.
  • Demência devido a doenças imunológicas, metabólicas ou infecciosas. Doenças como meningites, encefalites, lupus eritematoso, hipotireoidismo, esclerose múltipla e borreliose (presente nos EUA) são exemplos que podem levar à demência. Uma vez tratadas as condições, os sintomas podem reverter ou pelo menos estacionar.
  • Demência por problemas nutricionais. Pessoas alcoólatras, que comem mal, ou pessoas com deficiência de vitamina B12 e B1, podem desenvolver sintomas de demência, e estes sintomas podem reverter se houver reposição adequada da vitamina em falta.
  • Demência por Hematomas subdurais. A pessoa é mais idosa, bate a cabeça em algum lugar ou quando tem uma queda, e meses depois ocorre um sangramento no espaço entre o osso e o cérebro. Este é um exemplo típico de hematoma subdural, que pode dar sintomas iguais à demência de outras causas. Drenando, operando o hematoma, se consegue reverter os sintomas.
  • Demência por Hidrocefalia de pressão normal (HPN). Este tipo de demência é potencialmente tratado com cirurgia, colocando-se uma válvula na cabeça. Leia mais AQUI. É importante fazer a tomografia e ressonância, porque uma vez suspeitada, a indicação da válvula pode estacionar e até melhorar os sintomas de demência.
  • Demência por traumatismos cranianos. Às vezes, um jovem ou mais idoso sobre um trauma craniano muito sério, e pode, depois de recuperar-se, ficar com problemas de memória e problemas executivos / cognitivos. Isso não é tão infrequente. Pelo menos, nestes casos, os pacientes costumam não evoluir, e até mesmo melhorar com terapias cognitivas.
  • Demência por depressão. Sim. É sério. Depressão pura e simples, principalmente em idosos, pode causas, amigos, pode dar sintomas iguais, iguaizinhos à demência por Alzheimer, por exemplo. Por isso é muito importante saber deste tipo de causa, e tentar associar o começo dos sintomas, se houve algum fator externo, perda familiar, financeira, estresse, preocupação da pessoa acometida. E muitas vezes costuma-se até mesmo optar-se por tratar uma possível depressão, como um teste para ver se esta pode ser a causa.

Exames necessários

Primeia coisa: Passar com o neurologista. Este médico deverá aplicar testes de memória na pessoa, de orientação, funções de linguagem, atenção, etc, para detectar se há acometimento e em qual esfera.

Depois da avaliação neurológica, deste exame cuidadoso e dos testes neuropsicológicos, sempre devem ser feitos:

  • Exames de sangue – Para excluir causas metabólicas, infecciosas, hormonais, ou nutricionais de demências
  • Tomografia ou Ressonância do crânio –  Sempre deve ser feita, para excluir causas como hematomas, hidrocefalia de pressão normal, tumores, ou AVC (demência vascular / multi-infartos)
  • Angioressonância do crânio e cervical – Quando suspeita-se de demência vascular
  • Testes de Medicina nuclear – Podem ajudar na suspeita clínica, e os exames mais pedidos nesta área são o SPECT Cerebral e o PET-CT cerebral
  • Exame de Liquor cefalorraquiano – Existem substâncias e marcadores no líquido que reveste o cérebro, que podem ajudar o neuro a montar o quebra-cabeças do diagnóstico / causa da demência, e dar dicas para a causa da demência, sobretudo quando suspeita das degenrativas, como o Alzheimer. Problema: Este exame é novo, caro (mais de 4 mil reais), e nenhum plano de saúde dá cobertura. Portanto, reserva-se quando há dúvida realmente, quando não se pode esperar meses para este diagnóstico, ou quando a família tem condições de arcar com seu custo.

Tratamento

Nos casos com causa que pode ser tratável, tem que tratar a causa.

Entretanto, a maioria das demências, aquelas degenerativas, infelizmente, não tem cura. Mas nós neuros, e profissionais de saúde, como fisios, fonos, TOs, neuropsicólogos, podemos ajudar os pacientes e famílias.

  • Inibidores de colinesterase. Exemplos são a donepezila, a rivastigmina e a galantamina. Podem retardar o avançar dos sintomas em algumas demências degenerativas, e melhorar sintomas.
  • Memantina. Outra classe de remédios que tem efeitos parecidos com os inibidores de colinesterase.
  • Medicações para agitação, sono e confusão mental. Os mais comuns são os neurolépticos, como risperidona, quetiapina, olanzapina, entre outros. Ajudam o paciente a ficar mais calmo, e ajuda os cuidadores a conseguir cuidar melhor dos pacientes. Podem ser usados também indutores de sono.
  • Terapias. Fisio, fono, TO, reabilitação cognitiva, são alguns exemplos.

 

Outras dicas dobre a demência por Alzheimer você pode ler AQUI.

+++ Alzheimer: O que fazer e o que não fazer!!!

+++ Alzheimer: Reconhecendo seus sintomas

 

** Dra. Maramélia Miranda é neurologista com formação pela UNIFESP-EPM, editora do blog iNeuro.com.br.

3 thoughts on “Demências”

  1. Temos uma pessoa na família que iniciou com tremor na mão direita, levamos no neuro e solicitou RM, antes de termos o resultado do exame a outra mão início com pequenos tremores. O laudo apresentou pequena imagem ovalada discretamente hiperintensa T2/FLAIR e com realce do contraste é observado no espaço da calota craniana do osso parietal esquerdo medindo 11mm, inespecífico.
    IMPRESSÃO DIAGNÓSTICA: A RM mostra focos hiperintensos na substância branca dos hemisférios cerebrais, inespecíficos, podendo estar relacionados à Microangiopatia.
    O que pode ser? Li um pouco sobre demência vascular, é possível termos esse diagnóstico ?
    Qual a sua opinião?

  2. Oi dra! sou iacy filha de adalberta, estivemos ontem aí na revisão dela e acabei esquecendo meio corrido,gostaria por gentileza que me tire esta dúvida minha mãe tem Alzeimer? estava lendo o site que achei muito interessante mas a palavra final é sua claro pergunto isso pois ontem ela qdo me viu não me reconheceu perg quem eu era e o meu nome c/ a babá tbm de vez em qdo acontece?afinal são parecidos os sintomas eu achei demência,alzeimer! desde já lhe agradeço aguardo a resposta . muito grata!

  3. Minha filha tem miopatia mitocondrial,desde 2012 está perdendo memoria e deficit cognitivo e intelectual.Fizemos uma avaliação neuropsicológica em 2014 e deu QI 74,este ano observamos a piora e realizamos outra para controle
    que constatou a evolução da doença e um retardo mental com QI 61.Suas funções executivas e memoria tb pioraram.Foi solicitado ressonância com espectroscopia e gostaria que me disse se tb aparece a piora no quadro da demência:
    Pequena proeminência dos átrios / ângulos posteriores dos ventrículos laterais, notando-se
    tênue hipersinal em T2/FLAIR da substância branca peritrigonal à direita, inalterado em
    relação ao exame de referência.
    Há tênue proeminência dos espaços perivasculares nas regiões subcorticais dos lobos frontal
    e parietal esquerdos e coroa radiada deste lado, de aspecto pouco mais conspícuo em
    relação ao exame anterior.
    Demais vias de circulação liquórica intracranianas de aspecto para a faixa etária.
    Restante do parênquima encefálico com forma e sinal magnético preservados.
    Artérias carótidas internas apresentam flow-void usual em suas porções intracavernosas.
    Não há evidências de restrição à movimentação das moléculas de água, desvio da linha
    média, áreas de quebra de barreira hemato-encefálica e/ou coleções fluidas extra-axiais.
    Ectasias “císticas” com conteúdo semelhante ao do líquor, em região para selar bilateral,
    determinada pela insinuação petrosa da porção póstero lateral do cavo de Meckel, compatível
    com cefalocele do ápice petroso bilateral, maior à direita.
    O estudo de espectroscopia de prótons com voxel posicionado na substância branca
    evidenciou aumento do pico de Naa (N-acetilaspartato) e Cr (creatina), bem como redução da
    relação colina / NAA. Este achado é inespecífico, mas pode ser observado em doenças da
    membrana lisossomal relacionadas a distúrbio do armazenamento do acido siálico.
    A possibilidade das alterações da espectroscopia serem oriundas de interação
    medicamentosa também deve ser considerada. A interpretação do resultado deste exame e a

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *