Dissecção da artéria vertebral

Por Maramelia Miranda ** (Atualizado em Dezembro de 2017)

Tags: Dissecção vertebral; dissecção arterial cervical; dissecções das artérias cervicais.

Leia também: Dissecção da artéria carótida

O que é?

A dissecção arterial vertebral é uma causa importante de acidente vascular cerebral (AVC) isquêmico, sobretudo em mais jovens (menores de 45 anos), que deve ser logo reconhecida para receber o correto tratamento.

Quais as causas?

A dissecção da artéria vertebral pode ocorrer de forma espontânea, sem nenhuma causa aparente; pode também ter relação com alguma doença do colágeno previamente conhecida pelo paciente, como doenças reumatológicas diversas, lupus, fibrodisplasia, Síndrome de Marfan ou alguma vasculite.

Pode estar relacionada a um traumatismo local do pescoço, quer sejam traumas mais intensos e graves (acidentes automobilísticos, traumas diretos na região do pescoço), ou pequenos traumas (durante uma atividade física – traumas na região da cabeça ou pescoço, acidentes domésticos, e até mesmo terapêuticas alternativas, como massagens, shiatsu ou similares, yoga, etc).

Tipicamente, a dissecção arterial vertebral acomete adultos jovens, e ocorre quando a artéria vertebral apresenta uma lesão / laceração na sua camada íntima (camada mais interna da artéria, que fica em contato com o fluxo sanguíneo).

Este rasgo ou laceração interna da artéria provoca o acúmulo de sangue entre a camada que sofreu a laceração e sua camada muscular externa, levando à formação de um coágulo no local. O coágulo formado será o responsável pela obstrução da circulação, impedindo de forma parcial ou total – a passagem do sangue para as estruturas cerebrais irrigadas pelas artérias vertebrais.

Anatomia das artérias vertebrais, e a junção formando a artéria basilar, no tronco cerebral.

 

Quando suspeitar? Quais os sintomas?

Normalmente, são duas as artérias vertebrais: vertebrais direita e esquerda, correndo na região posterior do pescoço, da região do tórax para a cabeça. As vertebrais são artérias importantes que se unem na altura da nuca, para formar a artéria basilar, importante vaso que irriga o cerebelo e outras estruturas importantes do cérebro, como o tronco cerebral, mesencéfalo e os lobos occipitais, estruturas intracranianas responsáveis, entre outras coisas, pelo equilíbrio do corpo, articulação das palavras, deglutição, marcha, coordenação dos braços e pernas, movimentos oculares, audição, sensibilidade do corpo, acuidade visual e campos visuais.

Portanto, os sintomas mais comuns de uma dissecção arterial vertebral que leva a um AVC da circulação posterior, também chamado de AVC vertebrobasilar,  incluem sintomas muito semelhantes a uma crise de labirintite, dentre os descritos a seguir:

  • dor, geralmente no pescoço, simulando um torcicolo
  • tonturas, desequilíbrio, náuseas e vômitos
  • incoordenação e dificuldade para andar
  • incoordenação de um dos braços ou pernas
  • embaçamento visual ou perda de um dos campos da visão
  • estrabismos divergentes ou convergentes, e visão dupla
  • alteração da articulação das palavras, alterações para deglutição, fala anasalada

Um sintoma importante e bastante comum que ocorre nas dissecções arteriais, tanto da artéria vertebral como da artéria carótida, é a dor. Sendo as artérias estruturas do nosso corpo com inervação de dor, obviamente, quando ocorre a laceração da sua camada interna e a dissecção propriamente dita, este fenômeno leva à dor; no caso da artéria vertebral, a dor costuma localizar-se na região cervical posterior, geralmente no lado onde a artéria está dissecando.

É menos comum, mas alguns pacientes podem apresentar a dissecção da artéria vertebral apenas com o sintoma de dor cervical posterior, sem haver o AVCi, ou apenas sentir uma ameaça de sintomas de AVC, com os déficits listados acima por alguns minutos, tendo reversão espontânea após – fenômeno chamado Ataque Isquêmico Transitório – ou pela sigla – AIT.

Exames necessários.

Para o correto diagnóstico, além da importância da suspeita clínica feita pelo neurologista (sintomas de tonturas, vertigens, alteração da visão, simulando labirintite, associados a sinais neurológicos focais e dor na nuca), os casos de pacientes com suspeita de dissecção da artéria vertebral devem fazer:

  • Ressonância magnética da cabeça com avaliação por angioressonância magnética das artérias cervicais e da cabeça – Para detectar rapidamente o local da dissecção vertebral, visualizar o trombo / coágulo dentro da artéria acometida, e detectar se houve ou não a evolução para um AVC isquêmico.
  • Tomografia da cabeça, exame que costuma ser inicialmente pedido no pronto-socorro, é normal na grande maioria dos casos de dissecção da artéria vertebral. Durante a tomografia, onde há disponível, pode ser acrescentado o exame de angiotomografia.
  • Arteriografia cerebral – Quando não se dispõe da angiorressonância magnética das artérias, ou quando há dúvida nas imagens de angiotomo ou angiorressonância, uma opção é realizar uma arteriografia, para detectar o local da dissecção pela angiografia digital. A desvantagem é ser este exame mais invasivo, feito com introdução de cateteres na artéria da perna.
  • Exames de sangue diversos, que são realizados dependendo do exame clínico do paciente, para descobrir alguma outra possível causa de AVC em jovem, como ecocardiograma, exames de sangue, pesquisa de doenças reumatológicas, etc.

Qual o tratamento da dissecção da artéria vertebral?

Inicialmente, todo caso suspeito deve ser internado no hospital para observação e vigilância neurológica. Além dos exames diagnósticos acima descritos, o tratamento mais difundido e efetivo, embora não validado em estudos clínicos prospectivos, tem sido o uso de anticoagulação, inicialmente com heparina endovenosa em dose plena, e posteriormente a anticoagulação oral por cerca de seis meses.

Casos mais leves podem ser tratados com aspirina apenas. Até março de 2015, não havia nenhum estudo que mostrasse benefício de um ou outro tipo de tratamento, e há algumas contraindicações à anticoagulação conhecidas. O estudo CADDISS mostrou que a anticoagulação e a antiagregação foram igualmente benéficas, sendo dois tipos de terapias recomendadas, dependendo de caso a caso.

Alguns casos mais raros necessitam de algum tipo de intervenção do tipo endovascular (por cateterismo), sobretudo quando há obstruções graves da circulação, formação dos pseudoaneurismas, e em alguns casos com hemorragia subaracnoidea associada. Estes casos particularmente devem ser manejados por neurologistas com expertise / experiência em Neurologia Vascular, em conjunto com uma equipe de neurorradiologistas intervencionistas familiarizados com esta doença.

O prognóstico dos pacientes com dissecção da artéria vertebral é, em geral, muito bom, desde que haja o reconhecimento precoce do problema e o correto manejo com anticoagulantes e/ou antitrombóticos.

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** Dra. Maramélia Miranda é neurologista com formação pela UNIFESP-EPM, especializada em AVC e Doppler Transcraniano, editora do blog iNeuro.com.br.

65 thoughts on “Dissecção da artéria vertebral”

  1. Tive uma dissecção de vertebral por trauma em outubro de 2015, tive todos esses sintomas mas só fiquei com sequela visual , perda visão lateral do olho direito, fiz angiotomografia e angioressonancia após 1 ano e o fluxo arterial estava normal, faço uso diário de clopidrogel e rocivastatina diária, gostaria d saber se devo tomar alguma precaução e se a chance de acontecer novo episódio é mais comum em quem já teve?

  2. Boa noite me nome é Emerson de Souza. Carvalho tenho 32 Anos.
    Tive a 6 meses um AVC de tronco cerebral, Infarto Pontino envolvendo a porção basilar e tegumentar da ponte a direita e porção basilar da ponte a esquerda.
    Clínica técnica paciente 32 anos de idade com história de síndrome tronco encefálico técnica exame realizado em aparelho de ressonância magnética de Alto Campo 1,5 t sequência 3D trophy ou construções tridimensionais pela técnica me VIP para avaliação de artérias e veias intracraniana comprimentando consequência de um volumétrica pré e pós contraste e axial fly relatório angiorressonância fase arterial artérias carótidas internas com trajeto calibre e sinal de fluxo preservado artérias cerebrais anteriores médias e posteriores com trajeto calibre e sinal de fluxo preservados artérias anteriores comunicates.
    Encontram-se Breves Integradas artérias posteriores comunicantes e encontra-se e Intrigas fase venosa redução de calibre das artérias vertebrais e basilar pequena imagem E por sinal no interior da artéria basilar sugestiva de dissecção seio sagital superior transverso se moi Deus e confluência dos seios com o trajeto e sinal de fluxo preservados vias basais e Magnum com morfologia e sinal de fluxo preservado não há evidências de trombo venoso região infratentorial cérebro com morfologia e intensidade de sinal preservados amígdalas Celebrai em topografia habitual área hipossinal em T2 em topografia da ponte bulbo ponte e mesencéfalo com morfologia e intensidade de sinal preservados quarto ventrículo de calibre normal em mediano região supratentorial gírias sulcos e fissuras de curte caridade Como foi o dia e intensidade de sinal preservados substância branca sem alterações núcleos lentiforme caudado E talâmicos como foi hoje a intensidade de sinal preservados cavidade ventriculares de calibre normal não é desvio das estruturas da linha média corpo caloso íntegro a sequência de difusão não demonstra áreas de restrição a movimentação das moléculas de água, Esses são os sinais da terceira angiografia que eu fiz gostaria de saber se será necessário fazer uma cirurgia com Stent.

  3. Boa noite tive um infarto pontinho envolvendo a porção Basilar, e Tegmentar dá Ponte a Direita e Porção Basilar dá Ponte Esquerda.
    Sinais sugestivos de Dissecção na Artéria vertebral, e Basilar, gostaria de saber sobre Hestente, neste caso seria viável ir pra Cirurgia, ou não, como seria.

  4. Olá dr.! Tive um avc isquêmico na academia seguido de um hemorrágico já entrando no hospital apos duas convulsões, tive uma dissecção da carótida interna direita provocado por golpes no pescoço sofridos em treinos de jiu jitsu, passei mal logo apos receber um golpe chamado triangulo. Ainda tenho muita insegurança, gostaria de saber se a disseção pode voltar a acontecer e em consequéncia outro avc e se a artéria se regenera totalmente a ponto de poder levar uma vida normal, Voltando a praticando esportes q não agridam a região do pescoço,aumentar esforço físico. Pois tenho o cuidado de não aumentar os batimentos cardíacos ,pressão arterial com receio q isso possa provocar outra dissecção da arteria.

  5. luciene, muitos pacientes vivem estáveis sem as duas vertebrais com boa circulação. o termo que vc usou é estranho. o importante é o sangue ir para a artéria basilar, ou haver circulação adequada na basilar, ou por baixo – vertebrais, ou pela frente, comunicação do sistema anterior.

  6. Meu marido sofreu um AVC isquemico causado pelas vertebrais, meses após fez uma angiografia que detectou as duas vertebrais atrofiadas. Quais problemas ele poderá ter agora, uma vez que o cérebro já não recebe mais sangue pelas vertebrais?

  7. Olá boa tarde..
    Tive uma disseccão espontânea da artéria vertebral há 15 dias e estou tomando AAS e clopidogrel..Gostaria de recomendações de cuidados no dia a dia, quantos dias de repouso..quais esforços posso fazer?
    Obrigada

  8. Olá, eu tenho sentido todas essas dores que esta mostrando…
    Devo ir direto ao neurologista ?

  9. Boa tarde, fui diagnósticado com dissecção da arteria vertebral esquerda, já estou a quase um mês tomando remédio, continuo sentindo dor de cabeça, é normal?

  10. Doutora bom dia!!
    Em Agosto de 2015 fui internada e tive o diagnostico de disseccao da arteria vertebral fiz todos os exames e o doutor me medicou com AAS e Copidogrel , ja se passaram os 6 meses e aindo tomo os remedios e agora o doutor pediu para repetir as angio para verificar a situacao, refiz os exames e estou para retornar nele.
    A arteria depois da disseccao ela se recupera sozinha ou pode ficar com alguma anormalidade?

  11. BOA TARDE . MEU NOME E ROSANA TENHO 42 ANOS , TIVE UMA DISSECCAO VERTEBRAL A DIREITA , EM MARCO DE 2O15 , FIQUEI 15 DIAS ENTERNADA, NAO TIVE SEQUELAS, TOMEI MAREVAN POR 3 MESES E AAS POR MAIS 3 MESES . AGORA VOLTEI A SENTIR DORES DE CABECA E ACORDAR NA MADRUGADA POR CAUSA DA DOR, GOSTARIA DE SABER SE A DISSECCAO PODE VOLTAR.

  12. Dra. Bom dia.
    Há 2 meses sofri um acidente de carro e o resultado foi uma dissecação da artéria vertebral lado esquerdo.
    Venho fazendo controle com Coumadin e o RNI estava com 2,52.
    Este tratamento está correto?
    CComo não tenho muitas dores, acabo ficando preocupada.
    Vez ou outra tenho um “torcicolo” ou um incômodo no pescoço, mas não passa disso….
    Obrigada
    Att.
    Vanessa

  13. o resultado do exame de minha mãe deu artéria vertebral esquerda do tipo dominante.minha mãe tem parkinson mas a neuro diz que não, com esse resultado oque devo fazer

  14. Normalmente deixa-se anticoagulante por 6-12 meses, dependendo do tipo e característica do AVC e da dissecção. Normalmente não se usa Xarelto para anticoagular em casos de dissecção. Explico.

    Não há estudos que utilizaram novos anticoagulantes como o xarelto, pradaxa ou eliquis (todos estes uma classe similar) – EM CASOS DE DISSECÇÃO DA CARÓTIDA OU VERTEBRAL. Se o seu neuro te deu xarelto, foi como uma terapia alternativa que nunca foi validada ou demonstrada em estudos – isso chamamos em medicina de terapia “off-label”.

    sugestao –> fale com seu neuro, para ver estes detalhes. se o estudo da artéria dissecada mostrou boa cicatrização, usualmente deve-se parar o anticoagulante.

    quanto aos sintomas — depende do local do AVCi… não tem como te responder sem ver os exames de imagem.

  15. Olá, tbm tive um AVCI decorrente da dissecção da artéria vertebral, causada possivelmente por excesso de carga fisica (treinamento militar). Ja fazem 6 meses do ocorrido e ainda estou tomando o xarelto, pamelor, propranolol e labirim. Mesmo com as medicações ainda tenho desequilibrio e muita nausea, gostaria de saber se tem um tempo médio para a recuperação ou esses sintomas podem ser possiveis sequelas?
    Tambem gostaria de saber se quando eu parar de tomar o xarelto corro risco de possiveis recorrencias do AVCI ?

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