Vitamina D na Esclerose Múltipla: A verdade

Por Maramélia Miranda ** (Atualizado em Setembro de 2019)

Muito se fala, em jornais, revistas, Internet, redes sociais, Youtube, sobre o tratamento com vitamina D para a esclerose múltipla.

Após ler matérias, assistir documentários sobre este tema, alguns deles feitos de forma descuidada, interpretando o dito tratamento como “milagroso”, é importante salientar que a reposição de Vitamina D em portadores de EM é importante, devendo ser feita em todos os pacientes, mas a terapia isolada com doses altas de Vitamina D (doses entre 40-100 mil UI por dia) ainda não é um tratamento reconhecido nem aqui no Brasil, nem por nenhuma associação médica ou neurológica no mundo inteiro.

De tempos em tempos, o assunto ganha algum destaque na mídia. Em 2015, uma publicação em revista mensal Superinteressante colocou a Vitamina D como salvadora da pátria em várias doenças, incluindo EM. Nos últimos anos, começaram a ser publicados vários estudos usando doses de 10 a 20.000UI por dia, alguns estudos destes que foram favoráveis ao uso da vitamina D junto com os tratamentos de EM, em doses maiores do que as atualmente recomendadas (por dia) pela Associação Americana de Endocrinologia (1000 UI ao dia).

+++   A eterna discussão do leigo sobre EM e Vitamina D (comentários e perguntas frequentes)

Pois bem, caros pacientes com Esclerose Múltipla e seus familiares… Aqui vão algumas informações deste modesto blog, cuja missão principal é informar e esclarecer, de forma totalmente imparcial e prezando pela VERDADE, sem marketing, sem promoção de ninguém, sem promoção de nenhum médico, de nenhuma clínica, consultório ou de nenhum tratamento ou droga, qualquer que seja esta ou aquela… 

A Verdade sobre tudo isso… 

1 – Existe uma relação entre a vitamina D e a esclerose múltipla. Já há dezenas de trabalhos científicos de qualidade, mostrando esta relação… A distribuição da incidência da doença nas regiões do mundo, com maior número de casos em países menos ensolarados, pesquisas epidemiológicas, séries retrospectivas de casos, etc, etc, etc… E este tipo de fator de risco (ambiental – exposição solar e relação da vitamina D) e a genética envolvida na questão dos portadores da doença, sua imunidade ou possível resistência a vitamina D, é um dos, senão o mais estudado fator de risco, pela comunidade científica que lida e pesquisa a EM. Outros conhecidos fatores de risco relacionados à EM são o Epstein Baar vírus e o tabagismo, por exemplo.

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2 – Entretanto, apesar da evidência desta relação – EM e vitamina D, o tratamento baseado exclusivamente em doses altas de vitamina D para EM é um tipo de tratamento experimental, alternativo, que deve ser feito na forma de pesquisa clínica. Sua eficácia e segurança ainda não foram comprovadas em estudos clínicos, prospectivos (aqueles que são pré-planejados para avaliar qualquer tipo de tratamento) e controlados (que usam outras terapias ou placebo, para comparar o tratamento supostamente benéfico).

3 – Caso você tenha EM, e queira fazer esta linha de tratamento (megadose de vitamina D isolada), precisa saber disso – que não há comprovação científica até este momento (até setembro de 2019, data da última atualização deste post). Alguns estudos usando doses diárias entre 10 e 20.000UI já foram publicados em 2012 e 2015, mostrando benefícios e segurança destes níveis de doses, com seguimento mais curto dos pacientes, e com doses médias diárias de no máximo 17 mil UI por dia. Acima destas doses, não há NENHUM ESTUDO PUBLICADO. Alguns estudos de revisão, as chamadas METANÁLISES, até agora não mostraram um benefício muito claro… Entretanto, se mesmo assim quiser tentar experimentar este tratamento, pode tentar… Caso concorde e tenha ciência de que este tratamento ao qual será submetido seja dentro de uma pesquisa clínica, ou, por sua decisão, como costumamos denominar, caso você queira “chutar o pau da barraca”, “jogar tudo pro alto” e partir para uma terapia alternativa ainda não comprovada cientificamente. Não condeno quem procura. Cada um é dono do próprio corpo e escolhe o que melhor achar pra si. Eu acredito que a vitamina D algum efeito em doenças autoimunes. Muitos estudos e dados in vitro e in vivo estão sendo publicados. NÃO SE SABE QUAIS OS EFEITOS a longo prazo da terapia com doses muito altas de vitamina D. Aliás, há publicações com os EFEITOS RUINS (hipercalcemia, insuficiência renal…). Fazer tal tratamento pode terminar, por exemplo, do mesmo modo que a história do tratamento com stents nas veias do cérebro para a mesma Esclerose Múltipla (lembram desta história?!)??? A história dos stents nas veias cerebrais veio, veio, muita gente embarcou na esperança de cura, de melhora, e infelizmente os casos submetidos à tal terapia de liberação acabaram “morrendo na praia”, depois dos estudos controlados terem mostrado que: 1- a tal insuficiência venosa crônica não tem relação com EM, e 2- passar um stent nas veias dos pacientes não adiantava de nada. Especificamente sobre a Vitamina D na EM, acho que os estudos com Vitamina D e EM serão positivos, mas para se chegar a uma dose efetiva e SEGURA, estes estudos JÁ ESTÃO EM ANDAMENTO deverão ser publicados em breve. 

4 – A Academia Brasileira de Neurologia publicou uma diretriz, um documento chamado consenso, onde orienta como deve ser feito o uso de vitamina D em pessoas com Esclerose Múltipla. O documento está na Internet, ACESSO LIVRE PARA QUEM QUISER LER — AQUI. A agência de regulação de medicamentos canadense também publicou recente documento sobre este tema. Vejam nos links abaixo.

+++ Consenso Brasileiro sobre o uso de Vitamina D em Esclerose Múltipla – 2014

+++ Vitamin D for the Treatment or Prevention of Multiple Sclerosis: A Review of the Clinical Effectiveness

Qual a dose recomendada de vitamina D para pacientes com Esclerose Múltipla?

Enquanto estas pesquisas não respondem à pergunta sobre a segurança das doses hiper-mega-altas de da vitamina D em EM… Todo bom neurologista irá, certamente, pedir a dosagem da vitamina D para o seu caso, e repor esta vitamina em casos de deficiência no organismo, conforme o consenso atual – AQUI. Ou seja, com doses de no máximo 10.000UI ao dia, com monitoração médica, e atingindo um alvo de nível sérico de vitamina D de no máximo 100 ng/ml.

Doses acima de 10.000 UI por dia podem ser feitas, até o máximo de 17.000UI, com a devida monitoração, pois este foi o nível máximo que foi avaliado em estudos prévios. Lembrando que alguns estudos observacionais foram publicados mostrando que, do mesmo modo que níveis baixos são maléficos, do mesmo modo níveis muito altos de vitamina D também tiveram relação com maior índice de morte por infarto e AVC.

Infelizmente, o grupo brasileiro que trata pacientes com EM e outras doenças autoimunes, apesar de ter esta experiência clínica há muitos anos, nunca publicou nenhum dado de sua experiência com este tratamento e com pacientes com EM. Há vários sites na Internet falando que fulano, ciclano tem muitos pacientes, muita experiência com os casos… Mas o que eu pergunto é: Se tem experiência, porque não mostram os casos? Por que não descrevem suas experiências nas revistas médicas?!?!?! Isso é o certo. Se você tem experiência e isso faz bem, você médico tem que publicar, ora! Para comprovar que funciona. Não é publicar em Youtube… Publicar na revista de Neurologia… No congresso de Neurologia. De Esclerose Múltipla. 

Repito: Os médicos que fazem o tal protocolo de vitamina D nunca levaram estes dados à comunidade médica e neurológica, nem em congressos médicos, nem em revistas médicas, até a data de atualização deste post. A única publicação do grupo refere-se ao tratamento com vitamina D em psoríase e doenças dermatológicas. Em Neuro, Esclerose Múltipla, NADA… 

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Por que muitos pacientes com Esclerose Múltipla relatam na internet e redes sociais que estão muito bem com a Vitamina D?

Mesmo sem pesquisas controladas com estas doses tão altas de vitamina D, neuros pesquisadores e expertises em EM acreditam que isso ocorre porque, para cada tipo de EM, existe uma terapia melhor indicada. e A ESCLEROSE MÚLTIPLA TEM DIFERENTES FACES. tEM GENTE QUE TEM A DOENÇA LEVE, E TEM QUEM TENHA MAIS SÉRIA, E MAIS E MAIS GRAVE… Por exemplo, tem gente que toma as tal megadoses e se dá bem, fica ótimo, não surta, fica sem cansaço ou fadiga… Estes são os que devem ter a doença leve. E tem gente que toma, e se dá mal, continua tendo surtos. Continuam aumentando as lesões. Acredita-se atualmente que os pacientes chamados de “pouco surtadores”, ou seja, com doença mais leve, são os “que se dão bem”. São os mesmos que se dão muito bem usando os Interferons, Avonexes e Copaxones da vida, e ficam bem, sem surtos por anos e anos… Existe muita gente neste grupo. E os casos que tem doença mais séria, mais ativa, são aqueles que não respondem, e se dão mal com qualquer tratamento inicial, precisando de drogas mais fortes, na maioria das vezes… Por este motivo, hoje cada vez mais a terapia de EM deve ser individualizada, escolhida para cada caso de forma diferente.

Atualização em 2019…

Atualizando em 2019, saíram vários estudos clínicos… Muitos desfavoráveis, e alguns neutros para a vitamina D. Depois eu resumo, mas já deixo os links pra vocês a seguir.

Intoxicação por dose maior de 50 mil UI por dia em paciente com Esclerose Múltipla. 

Revisão sobre a vitamina D no manejo da EM.

Metanálise sobre Vitamina D em EM. 

Estudo super importante, em ratos, com doses baixas, médias e altas de Vitamina D. Esse estudo saiu há 3 meses, seríssimo, na revista superconceituada Brain… Os alemães só tiveram coragem de deixar níveis de Vitamina D acima de 200 no sangue… Em ratos… E os que usaram dose mais alta, não foram muito bem…

Concluindo…

Eu particularmente acredito que os neurologistas comprometidos com a boa prática médica, e neste grupo me incluo, continuaremos aguardando ansiosos, como fazemos há anos, mais trabalhos e artigos dos colegas neurologistas que usam este tratamento experimental / alternativo. Os dados até agora são bastante conflitantes. Estudos a favor, neutros e contrários. 

Só para vocês terem uma ideia, existem vários estudos clínicos controlados, em andamento atualmente, testando doses maiores de vitamina D em EM – vejam AQUI. No Brasil, centros de referência em EM (UNIFESP, HC e Santa Casa, em SP, além de outras cidades brasileiras), também estão buscando desenvolver pesquisas nesta área, sempre deixando claro aos pacientes que, para entrar numa pesquisa clínica com doses mais altas de vitamina D em EM, a terapia é ainda considerada experimental.

Para fazer um estudo clínico com uma droga considerada experimental, do ponto de vista ético, não se pode cobrar nada dos pacientes que querem se submeter a este tratamento. Somente após estes estudos terminados e apresentados, poderemos prescrever este tipo de tratamento sem fazer “experiências” com os nossos pacientes.

Uma pequena dúvida: Por que será que estes médicos com centenas, milhares de casos, não publicam logo estes resultados, my God!???? Eu já teria feito isso nos primeiros 100 casos tratados… O que será que este grupo está esperando para publicar isso?! Enquanto os brasileiros não publicam, os canadenses e americanos avançaram muito, e serão os verdadeiros e reconhecidos pioneiros da terapia…

+++ A eterna discussão do leigo sobre EM e Vitamina D

+++ Médicos questionam tratamento de esclerose múltipla à base de vitamina D

Por fim, esclareço: não sou contra a vitamina D.

Acredito realmente que ela faz a diferença, mas minha prática médica me exige que eu tenha a certeza que esta terapia é: primeiro, SEGURA PARA SER DADA – devido à possibilidade de intoxicação por vitamina D quando se usam doses muito altas; segundo, sabermos se esta terapia é, em conjunto ou isolada, mesmo EFETIVA para os nossos queridos pacientes. Para isso, precisamos da evidência científica de boa qualidade.

Por enquanto, não podemos testar tratamentos não comprovados nos pacientes com Esclerose Múltipla… 

 

** Dra. Maramélia Miranda é neurologista pela UNIFESP-EPM, editora do blog iNeuro.com.br.

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Vários comentários abaixo…

A eterna discussão do leigo sobre Vitamina D e Esclerose Múltipla…

Uso de Vitamina D em Esclerose Múltipla: Consenso da ABN publicado! 

Vitamina D e Esclerose Múltipla: Mais evidências desta interação. Post com novos estudos publicados em 2012.

Esclerose Múltipla – Texto explicando a doença, destinado aos pacientes, familiares e público leigo.

Médicos questionam tratamento de esclerose múltipla à base de vitamina D – Reportagem da revista Veja sobre a controvérsia do tratamento com Vitamina D em EM. Datada de 28/06/2014.

Insuficiência Venosa Cerebral Crônica pode ser a causa da Esclerose Múltipla: Será?!

Casos de intoxicação por Vitamina D AQUI e AQUI.

201 thoughts on “Vitamina D na Esclerose Múltipla: A verdade”

  1. Fique em paz, Sra. Fornarina. Minha sugestão à Sra. é apenas uma: De próximas vezes, seja cordial, e não desdenhe nem maltrate os que não conhece e que tem pensamentos diferentes dos seus.

    Fiz questão de manter seu comentário na íntegra, incluindo o xingamento “vendida e maldita”. Embora palavras de baixo calão, termos chulos, e que xingamentos não sejam permitidos aqui, apenas os mantive para demonstrar todo seu ódio pelos que discordam de suas ideias. Lamentável.

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