Natalizumab em Esclerose Múltipla: Menos é mais.

O ACTRIMS 2018 em San Diego, em janeiro deste ano, trouxe algumas novidades… E entre as apresentações, uma merece nossa atenção, pois pode – definitivamente – mudar um pouquinho o manejo nos casos de tratamento em casos de EM mais ativos.

Um grupo de pesquisadores americanos (New York University) demonstrou que doses menos frequentes de Natalizumab, a cada 35-43 dias, em comparação com a dose padrão, a cada 4 semanas, associou-se a um risco significativamente menor de desenvolvimento de leucoencefalopatia multifocal progressiva – PML, a mais temida das complicações com este tratamento. Este achado foi em pacientes com EM e teste de JC positivos.

O mesmo grupo já havia publicado em 2016 achado de eficácia similar em doses estendidas. E isso já é uma prática em casos selecionados.

O estudo foi feito com base em um registro enorme, feito de forma obrigatória nos EUA como parte do programa de prescrição do Tysabri, de avaliação de risco de quem usa Natalizumab. Portanto, pessoal, foi financiado pela indústria, a Biogen.

O registro tem mais de 90 mil pacientes com EM, é chamado de registro TOUCH, e expressa a prática clínica de vida real dos pacientes com EM em regime de Natalizumab nos EUA, com uma das drogas mais efetivas e das mais usadas no mundo inteiro, no manejo de EM mais grave e mais ativa.

Os autores do estudo avaliaram os pacientes tratados com a droga e sorologia JC positiva – n= 35132 casos. A partir desta população, dividiram-na em dois grupos: os que tomaram o Natalizumab a cada 3-5 semanas versus os que tomaram em dose de intervalo estendido, a cada 5-12 semanas (em inglês – denominaram extended-interval-dosing – EID). o risco de PML foi comparado nos dois grupos, ajustados para variáveis como idade, sexo, uso prévio de imunossupressão e número de infusões.

Resultados

Dose média do intervalo padrão = 29 dias.

Dose média do EID = 36 dias.

Mudança da dose padrão para estendida = ocorreu na grande maioria das vezes em casos com mais de 2 anos de uso da droga, ou seja, aqueles com maior risco de desenvolver PML.

Incidência de PML por 1000 pacientes = 1,23 no grupo EID vs 3,96 no intervalo padrão. Isso significou uma redução de até 94% de risco de desenvolver PML…

No grupo de EID = PML risk (hazard ratio [HR], 0.06; 95% confidence interval [CI], 0.01 – 0.22; P < .0001). Números abaixo. Aqui pra nós: números bem convincentes, não?!

Table. Cumulative Probability of PML in Primary Analysis (Fonte: Medscape.com)

Time Point

PML Cases/Patients at Risk (n/n)

Standard Dosing

EID

5 y

45/4236

0/958

7 y

74/1823

3/515

Vejam só que isso foi num registro de casos JC positivos, com variabilidade de intervalo de dose, estudo retro, não controlado, de banco de dados, com todas as críticas que possam fazer.
Mas é extremamente interessante mesmo.
A pergunta que fica é a seguinte…: Será que devamos extrapolar estes resultados e fazer natalizumab em dose estendida desde o começo a partir de agora, mesmo em casos JC negativos????

Vamos ver os próximos capítulos da coisa. Curiosos? Abram os links abaixo. Tem até o poster apresentado, em PDF.

LINKS

Americas Committee for Treatment and Research in Multiple Sclerosis (ACTRIMS). LB250. Presented February 2, 2018.

Poster apresentado no ACTRIMS – AQUI.

C Helwick. Less Frequent Natalizumab Dosing Dramatically Reduces PML Risk. Medscape 2018. 

Ryerson et al. Extended interval dosing of natalizumab in multiple sclerosis. BMJ 2016.


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